O NOSSO DEVER DE PENSAR:
Se por preguiça não nos dermos ao trabalho de pensar,
outros o farão por nós! E para que assim não seja,
teremos nós de o fazer sob pena de passarmos ao lado do que,
normalmente oculto e manipulado,
ocorre à nossa volta, nos envolve e nos domina, escravizando-nos!
27.mai.2020 Monteiro deQueiroz
Lenda de Moura Morta - Peso da Régua
Houve noutros tempos um emir que vivia no castro de Cidadelhe e tinha uma criada moura ao seu serviço. Um dia, para tentar obter os favores dos cristãos que eram já muito poderosos nas redondezas, exigiu-lhe que aceitasse receber o baptismo, convertendo-se, desse modo, ao cristianismo. Ela, contudo, recusou. E como castigo, o mouro encerrou-a num cativeiro, acreditando que, pela força, ela cederia aos seus planos.
Um dia a jovem conseguiu fugir, e lançou-se ladeiras abaixo na direcção do rio Sermanha. O mouro, mal deu por isso, veio em sua perseguição. E quando a fugitiva passou para o lado de cá do rio, já no concelho do Peso da Régua, e porque estava já em terras cristãs, abandonou-a.
Entretanto, apanhada pelos cristãos, só lhe restavam duas saídas: voltar para trás e entregar-se ao mouro que a perseguia, ou ficar em terras cristãs e converter-se a esta religião.
Não aceitou nenhuma delas. E lavrou assim a sua própria sentença de morte, sendo abatida pelas lanças dos cristãos. E às terras onde o seu corpo foi deixado sem vida, o povo passou depois a chamar Moura Morta.
APL 3681
PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.314, 2001
Moura Morta, PESO DA RÉGUA, VILA REAL
Informante: Maria Otília Figueiredo (F), 71 y.o.
Lenda de Moura Morta - Castro Daire
No século XIII, Mouramorta pertencia ao concelho do Moção e era terra «regalenga». No XVI, cerca de 1537, tinha 23 moradores. Era o tempo em que por estas bandas da serra do Montemuro, como dirão mais tarde as «Memórias Paroquiais» de 1758, não proliferavam «homens ilustres em letras e armas».
Reza a lenda da «moura encantada», aquela que, segundo a tradição, vivia oculta nas redondezas da aldeia e que, depois de morta e sepultada na capela de S. Tiago, sita ao fundo da aldeia, ao lado do caminho da Chandeira, lhe legou o nome. Ei-la:
«Era uma pastora que, pastoreando o seu rebanho na serra, lá para os lados das Decímas (acentuámos o í para a palavra se não confundir com décimas, com acento no é), apareceu-lhe uma linda e estranha mulher que, não tendo embora aspecto faminto, lhe pediu uma malguinha de leite das suas cabras. Solícita, a pastora retirou da cesta da merenda, produto artesanal local, em verga, onde também tinha sempre as agulhas e os novelos para fazer meias e camisolas, a malga que ela própria utilizava, no monte, para uma refeição ligeira. Espremidos os tetos da cabra com o amojo mais volumoso, encheu a malga do apetitoso, espumoso, leite quente, alimento que logo entregou à estranha e desconhecida personagem.
Esta agradeceu-lhe a gentileza e disse à pastora para não se demorar ali enquanto ela bebia o leite. Que continuasse a apascentar o gado. Que de regresso lá encontraria a malga. Que levasse para casa o que estivesse dentro dela.
Assim foi. Dada a volta, a pastora, chegada ao local encontrou dentro da malga três bugalhos de carvalho. Ficou surpreendida e desiludida. Que ingratidão! A mulher mangara dela ao recompensá-la daquela maneira. Antes não deixasse nada. Bugalhos de carvalho, fruto de árvores abundantes na zona, tinha ela aos pontapés. Deitou dois bugalhos fora e, por comodismo seu, guardou um para comecilho de novelo, pois uma dobadoira a aguardava à noite, em casa, com meada posta.
No serão, ao pegar novamente no bugalho, foi o espanto. Ele estava transformado numa peça de ouro. Enganara-se julgando mal a desconhecida. Ela era, afinal, uma moura encantada. Senhora de oculto tesouro quisera partilhar com a pobre pastora as riquezas acumuladas e retidas sem proveito. A pastora reconheceu o erro, mas era tarde para repará-lo.
Contou o sucedido à família, aos amigos, a toda a gente e todos se maravilhavam com o que aconteceu».
Estava criada mais uma lenda de uma «moura encantada». O insólito acontecimento atravessou séculos e chegou aos nossos dias. De múltiplas versões, eis aquela que recolhemos no ano de 1986, juntamente com os registos que giram em torno dos mouros, somando a campa cavada num penedo, a cerca de 3 quilómetros da povoação, para os lados de nordeste, a mais ou menos trinta metros do lado esquerdo do caminho que liga Mouramorta ao Mezio, na base do outeiro das Decímas.
Autor: Abílio Pereira de Carvalho, do meu livro «Lendas de Cá, Coisas do Além», ed. em 2004
In Sitio na Web “trilhos serranos”
http://www.trilhos-serranos.com/
Via http://www.uf-meziomouramorta.pt/index.php/lendas-da-nossa-terra/13-lenda-de-moura-morta
Escrito por Executivo UF Mezio Moura Morta Categoria: Lendas e Costumes Publicado em 23 dezembro 2014
[c. 01.jun.2020]
Lenda de Moura Morta - Castro Daire
Houve noutros tempos um emir que vivia no Castro de Cidadela e tinha uma criada moura ao seu serviço. Um dia, para tentar obter os favores dos cristãos que eram já muito poderosos nas redondezas, exigiu-lhe que aceitasse receber o batismo, convertendo-se, desse modo, ao cristianismo. Ela, contudo, recusou. E como castigo, o mouro encerrou-a num cativeiro, acreditando que, pela força, ela cederia aos seus planos.
Um dia a jovem conseguiu fugir e lançou-se ladeiras abaixo na direção do rio Sermanha. O mouro, mal deu por isso, foi em sua perseguição. E quando a fugitiva passou para o outro lado do rio, já no concelho de Peso da Régua e, quando já estava em terras cristãs, abandonou-a.
Entretanto, apanhada pelos cristãos, só lhe restavam duas saídas: voltar para trás e entregar-se ao mouro que a perseguia, ou ficar em terras cristãs e converter-se a esta religião. Não aceitou nenhuma delas. Lavrou assim a sua própria sentença de morte, sendo abatida pelas lanças dos cristãos. E às terras onde seu corpo foi deixado sem vida, o povo passou depois a chamar Moura Morta.
MOURA MORTA, situada em terras de Montemuro, entre as freguesias de Picão e Ermida, Gozende, Monteiras e Castro Daire, é constituída por um único aglomerado populacional, com uma área de 23 hectares e dista cerca de 7 Kms do centro da sede do concelho. A tradição popular gosta de fundamentar a origem do topónimo MOURA MORTA numa lenda, assim contada por um natural da terra.
Era uma moura que se dirigia ao povoado, que na altura se chamava Mazes e encontrou um grupo de rapazes que, sentados à sombra, impediram a sua passagem, pois havia lita entre cristãos e não cristãos e bateram-lhe. A moura caiu, morreu e vem daí o nome de MOURA MORTA.
O concelho de Moção foi extinto no ano de 1834 e MOURA MORTA passou para o concelho de Castro Daire.
Era o tempo em que por aquelas bandas da serra de Montemuro, como mais tarde historiadores escreveram, proliferavam por ali, Homens Ilustres em Letras e Armas. A Moura era uma pastora que, pastoreando o seu gado e vivendo na casa do Mouro, um dia apareceu-lhe uma linda e estranha Mulher, faminta, lhe pediu uma malguinha de leite das suas cabrinhas. A moura solicita, retirou da cesta da merenda em verga, onde guardava as agulhas e os novelos para fazer meias e camisolas.
Espremidos os tetos das cabras, encheu a malga com leite quente e espumoso, alimento que logo entregou à estranha e desconhecida personagem. Esta agradeceu-lhe a gentileza e disse à pastora (moura) para não se demorar ali enquanto ela bebia o leite e quando regressasse lá estaria a malga e que levasse para casa o que estivesse dentro da mesma. Assim foi. Quando voltou, a pastora chegada ao local encontrou dentro da malga 3 bugalhos e ficou desiludida com tanta ingratidão. Bugalhos tinha ela aos pontapés, pois é zona de carvalhos.
Deitou fora 2 bugalhos e utilizou um outro para começar um trabalho, pois uma dobadoira a aguardava à noite, em casa, com as meadas. No serão, ao pegar novamente no bugalho, foi o espanto, ele estava transformado em ouro. A desconhecida era afinal uma moura ENCANTADA. Estava criada mais uma lenda de uma "Moura Encantada"
Reza a lenda da Moura e segundo a tradição, viveu oculta nas redondezas, morreu e foi sepultada na Capela de S. Tiago, sita ao fundo da aldeia.
Mas, a lenda também diz, que a sua campa foi cavada num penedo, a cerca de 2 Kms da povoação de Moura Morta, ao lado do caminho que liga duas povoações.
Na campa cavada num penedo, todos cabem deitados, seja grande ou pequeno e... porquê??? Porque é a campa da Moura Encantada.
por Fernando Morgado, Gazeta da Beira
https://gazetadabeira.pt/lendas-de-portugal-lenda-da-moura-morta-castro-daire/, [c. 01.jun.2020]
Nota do autor: há confusão entre Moura Morta de Castro Daire e Moura Morta do Peso da Régua.
Mouras e Tesouros Encantados
Mouras e Tesouros Encantados
As mouras encantadas, são um dos temas mais comuns das lendas e superstições populares da Europa Ocidental. São classificadas como divindades maléficas, génios femininos das águas, guardiãs de tesouros encantados escondidos no centro da Terra.
Só na mitologia portuguesa desapareceu essa feição maléfica que estas entidades revestem noutras mitologias europeias. Contudo, podemos ver um derradeiro reflexo nalgumas tradições, ainda hoje em vigor no nosso país, executadas junto às fontes, à noite, sobretudo na noite de S. João.
O que é certo é que, de todas as criações do maravilhoso popular, esta é, indubitavelmente, uma das mais poéticas e melhor exemplificadoras da crença geral europeia.
Mas, porquê a designação de “mouras encantadas”? Logicamente, esta designação remonta à época do domínio árabe (mouro), na Europa Ocidental. Em Portugal, o domínio árabe inicia-se no ano de 711 e só em 1249 se desvanece por completo ( em 1249, D. Afonso III toma Faro, Albufeira, Porches e Silves, marcando o fim da reconquista portuguesa; segue-se uma guerra entre Portugal e Castela pela posse do Algarve, que termina em 1253, com o Tratado de Paz). Fazendo as contas, são mais de 5 séculos de influência da cultura árabe.
Ora, sendo Portugal um país de tradição católica cristã, é normal que as “mouras” – de religião islâmica – que ficaram no nosso país fossem “encantadas” para não poderem exercer nenhuma influência.
No nosso país, é sobretudo como génios femininos das águas que as mouras encantadas são conhecidas, característica esta muito presente nas superstições que a elas se referem. As mouras vivem em ribeiros, regatos, poços e, sobretudo, em fontes. Pode dizer-se que quase não há fonte no país associada a uma lenda de moura encantada, ora em forma de cobra/serpente que pede aos viajantes que a desencantem; ora subtil donzela que promete infindáveis riquezas a quem lhe quebrar o encanto.
Dada esta enorme quantidade de lendas e superstições acerca das mouras, seria impossível apresentá-las todas. As lendas que se seguem são apenas uma demonstração.
Num sítio chamado Fornos, em Algoso, há uma fonte onde vivia uma moura encantada que, certo dia, apareceu a uma boieira prometendo-lhe imensas riquezas, se a desencantasse. Para tal, bastava que não se assustasse quando ela lhe aparecesse à hora aprazada em figura de touro bravo, em jeito de querer escorná-la, ou de serpente a trepar por ela acima para a beijar.
A rapariga prometeu mas, quando da investida da serpente, fugiu. A moura desapareceu, lastimando-se: -“Ai que me dobraste o encanto!”
É sempre assim, as mouras lá estão, e os tesouros também, mas ninguém se atreve a desencantá-los. Os que o prometem e falham, dobram o encanto às solitárias mouras encantadas.
Também noutra fonte do sítio da Terronha, há outro encanto sob a forma de cordão de ouro. Já uma vez foi visto por uma mulher que começou a dobar, a dobar nele e, quando já não podia mais, entendendo que já tinha riqueza suficiente para si, filhos, netos e bisnetos, cortou o cordão. Imediatamente, tudo desapareceu e a mulher ficou sem nada.
A Moura de Algoso
Algoso é uma pequena aldeia perdida nas serranias transmontanas. Diz uma lenda, que ainda subsiste, que no tempo dos Mouros existia nos arredores um bruxo famoso, conhecedor de mezinhas milagrosas e sabedor do passado e do futuro. Vivia num casebre um pouco afastado da povoação, mas nem a pobreza da sua casa, nem a distância, obstavam a que ali acorressem quantos acreditavam nas suas capacidades mágicas ou videntes.
Na verdade, todos ali acudiam em busca de cura para os seus males, pedindo filtros de amor ou indagando sobre o que lhes reservaria o futuro. Em certos dias era uma autêntica romaria. E com tudo isto o bruxo criou fama e proveito de homem rico, apesar de continuar a viver no pobre casebre tentando fazer-se passar por miserável. Entretanto, os cristãos iam avançando na reconquista de território ainda sobre a dependência dos Mouros e estavam a aproximar-se rapidamente de Algoso. Sabendo disto o bruxo, calculou que a ocupação cristã não viesse a ser muito demorada e decidiu esconder os seus tesouros, para recuperá-los mais tarde, quando pudesse voltar ao seu oficio.
Assim pensando, escolheu o que podia carregar consigo, e o restante meteu-o num cofre de marfim chapeado a cobre. Feito isto, e como precisava de encontrar um bom esconderijo para a sua fortuna, partiu com o cofre debaixo do braço em demanda do melhor local. Depois de muito procurar, achou que o melhor sitio era debaixo da fonte de S. João, debaixo das raízes de um enorme e belo chorão que derramava a sua sombra nas águas. Pegou numa enxada e cavou um buraco apropriado ao tamanho do cofre. Meteu-o lá dentro, tapou-o com terra e disfarçou a obra com folhagem e gravetos. Terminado o trabalho, levantou-se e olhou em volta. Espantado, viu uma mourinha que, descuidada, descia uma vereda da serra cantando uma velha canção. Convencido que a moura o vira esconder o cofre e estava agora a disfarçando o caso, o bruxo encaminhou-se para ela, olhou-a com uma estranha fixidez, fez uns sinais misteriosos e, recitando certa oração antiga, lançou sobre a menina um encantamento, de tal modo que ela desapareceu no mesmo instante. Casquinhando, esfregou as mãos, pegou nos seus haveres e desandou rapidamente para a floresta, donde nunca mais voltou. A lenda da moura de Algoso foi passando de geração em geração. A fonte de S. João de resto, continuava ali, lembrando a todos a desdita da mourinha encantada pelo bruxo e desafiando a coragem de quem sonhasse desencantá-la. Uma noite, muito próxima da de S. João, um rapaz de Algoso que se apaixonara pela história sonhou que via a moura na fonte. Mal acordou, decidiu tentar ver na madrugada de S. João se a lenda era verdadeira. Além disso, como corria se alguém visse a moura nas suas horas felizes lhe podia fazer três pedidos que seriam atendidos, o rapaz achou que, apesar do medo, era vantajoso fazer aquela tentativa. Na véspera de S. João, encaminhou-se para a fonte ainda antes de anoitecer por completo. Procurou um local para se esconder, de onde visse sem ser visto, e esperou pela meia noite sem fazer ruído algum. O velho chorão da fonte, já centenário, continuava lançando sobre a água os seus ramos lacrimejantes.
Do outro lado, havia agora um belíssimo roseiral, donde provinha um perfume intenso quando todas as rosas abriam. Chegou a meia noite. De repente o rapaz ouviu uma restolhada vinda das bandas do roseiral. Era uma enorme serpente que, rastejando, se dirigia para a fonte. Aí chegada, mergulhou três vezes. Qual não foi o espanto do moço quando viu aparecer sobre as águas uma menina: a moura da fonte e... mais bela do que tradição contava. A moura saltou com leveza da rocha para o solo e, sentando-se na borda da fonte, começou a cantar uma suave canção que o marulhar da água acompanhava, enquanto ela ia passando um pente pelos seus cabelos loiros. Subitamente, uma corça apareceu vinda da floresta e, sem mostrar qualquer receio, aproximou-se da moura, que a afagou com ternura. A corça, num gesto de agradecimento, lambeu-lhe as babuchas de damasco azul. Era realmente um espectáculo de beleza que o rapaz jamais esperava encontrar, E, acocorado no seu canto, esqueceu os três pedidos que queria fazer, esqueceu tudo, esqueceu-se até de si mesmo, até que, bruscamente, a moura parou de se pentear, debruçou-se no tanque e desatou num pranto irreprimível. Chorava, talvez, a dor da sua solidão sem fim. Condoído, o rapaz fez um movimento para a consolar, esquecido do que não fosse aquela ânsia de ternura que dele se apoderara. Ao erguer-se, porém, fez estalar sob o corpo os ramos da sebe em que se escondera. A corça embrenhou-se rapidamente no mato e a moura desapareceu subitamente, evolando-se numa névoa sobre a águas da fonte de S. João de Algoso.
Retirados do livro "Lendas Portuguesas" autor Fernando Frazão
via http://www1.ci.uc.pt/iej/alunos/2001/lendas/Lendas%20de%20Braganca.htm